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A LUZ VEIO AO MUNDO Imprimir e-mail

António Couto

1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, Bapti­zados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal:

memória do baptismo [= execução do programa filial baptis­mal] para os baptizados, preparação para o baptismo por parte dos catecúmenos (SC 109), que têm neste IV Domingo da Quaresma os seus segundos «escrutínios»: segunda «cha­mada» para a Liberdade.

2. O Evangelho deste Domingo IV da Quaresma (João 3,14-21) mostra-nos a toda a luz o «Filho do Homem», que deve (deî) ser levantado [= crucificado/exaltado/glorificado] como o verda­deiro «Servo do Senhor» (Isaías 52,13),

logo identificado com Cristo Jesus (Filipenses 2,9), o Filho Unigénito de Deus, «a Luz que veio ao mundo» (João 3,19; 12,46), para dar a Vida ao mun­do (João 1,4; 3,1516). Veio (elêluthen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego.

Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer compreender melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz (!) para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colo­cada sobre o candelabro?

Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,2122). Tendo vindo na humildade da condição humana, esta Luz foi entronizada na Cruz onde arde para sempre: suprema manifestação do infinito, insondável, impenetrável, incompreensível, indi­zível amor de Deus:

«Deus amou (êgápêsen: aoristo históri­co!) tanto o mundo»! (João 3,16). Assim manifestada na Cruz Gloriosa, esta Luz dá a Vida verdadeira a quem para ela olhar como a imagem da cobra levantada no deserto (Números 21,89).

«Hãode olhar para aquele que trespassaram» (João 19,37). «Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32). «Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então sabereis que “Eu Sou”» (título divino) (João 8,28).

3. Para ter a Vida verdadeira, é necessário ver [= acre­ditar] o Filho (João 3,36; 6,40), Luz da Luz, que brilha sobre a Cruz, novo e último candelabro do amor de Deus (Actos 2,36).

Ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). Para O ver é necessário ter nascido da água e do Espírito (João 3,5), claríssima alusão ao baptismo, a grande iluminação que abre os nossos olhos para o divi­no (Hebreus 6,45: texto espantoso!) e nos faz «filhos da luz», operadores das «obras da luz», que não têm parte com as «obras das trevas» (Efésios 5,814).

4. Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naqueles chagas abertas, naquele sangue a escorrer ou já coalhado:

está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está em nós; 2) ali passa também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça, única maneira de a absorver, dissolver e absolver.

A cura não é mágica. Exibida a imagem da cobra escondida que há em nós, conhecemos agora a doença de que padecemos. Podemos, portanto, começar a tratar-nos. E o remédio também está ali posto bem diante dos nossos olhos: é o amor subversivo!

5. A grande «teologia da história» expressa no 2 Livro das Crónicas 36,14-23 deixa bem claro que, abandonando a Palavra de Deus, que é a nossa luz (Salmo 118,105) e a nossa vida (Deuteronómio 32,47), caímos inevitavelmente nas trevas e na morte de um «exílio» qualquer.

Porém, o caminho é reversível: aproximandonos de Deus e da sua Palavra, podemos recuperar de novo a luz e a vida. É, na verdade, «a tua Palavra, Senhor, que tudo cura» (Sabedoria 16,12).

6. O extracto da Carta de S. Paulo aos Efésios (2,4-10) acentua hoje o nosso movimento da morte para a vida em Cristo Je­sus: movimento baptismal (da morte para a vida) e fórmula baptismal («em Cristo Jesus»).

Nisto se manifestou «o gran­de amor com que Deus nos amou» (êgápêsen: de novo o inaudi­to aoristo histórico!) (Efésios 2,4). Mas há muito mais «coisas» inauditas de que Paulo tem de se socorrer, inovando até o vocabulário grego (!), num esforço supremo para tentar tra­duzir este indizível «grande amor» de Deus:

com Cristo nos com-vivificou (Efésios 2,5), nos comressuscitou e nos com­sentou nos Céus (Efésios 2,6). Tudo aoristos históricos!!! Com­preendase, portanto, o incompreensível: tudo isto já nos aconteceu! Somos, de facto, obra de Deus! (Efésios 2,10). Demos Graças a Deus!

7. A grande e sentida súplica que atravessa o Salmo 137 atravessa também as nossas mãos, língua, céu da boca, voz, mente, alegria, lágrimas. Não é possível cantar na Babilónia.

Os Cânticos de Sião não são folclore, mas oração a ferver saída das entranhas! Não se dão naquele «lá» (sham) estrangeiro e inóspito da Babilónia.

A pátria da música e da alegria é o «lá» (sham) de Jerusalém, cidade-mãe, que faz de Deus-Pai, Casa materna e paterna, onde reina a liberdade e a fraternidade, e não a escravidão e a tirania. No decurso da segunda guerra mundial, o poeta italiano Salvatore Quasimodo glosou assim este imenso Salmo:

«E como podíamos nós cantar/ com o pé estrangeiro sobre o coração,/ entre os mortos abandonados nas praças,/ sobre a erva dura do gelo,/ com o lamento de cordeiro das crianças,/ com o urlo negro da mãe/ que ia ao encontro do filho/ crucificado sobre o poste do telégrafo?/ Nos ramos dos salgueiros, por voto,/ também as nossa harpas estavam dependuradas:/ oscilavam leves sob o vento triste».

8. Mas nós, que atravessamos a Quaresma, sabemos bem que todo o gelo glaciar é derretido pelo sopro do amor que até nós vem daquele que está naquela Cruz erguido!

Fonte: Mesa de palavras

 
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