Pastoral da Caridade Imprimir e-mail

                        “Toda a actividade apostólica deve fluir e receber força da caridade; algumas obras, porém, prestam-se, por sua própria natureza, a tornarem-se viva expressão dessa caridade. Cristo quis que elas fossem sinais da sua missão messiânica. O maior mandamento da lei é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo. Cristo fez deste mandamento do amor para com o próximo o seu mandamento, e enriqueceu-o com novo significado, identificando-se aos irmãos como objecto da caridade, dizendo: «sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» …

                …A santa Igreja, assim como nos seus primeiros tempos, juntando a «ágape» à Ceia eucarística, se mostrava toda unida à volta de Cristo pelo vínculo da caridade, assim em todos os tempos se pode reconhecer por este sinal do amor. E alegrando-se com as realizações alheias, ela reserva para si, como dever e direito próprios, que não pode alienar, as obras de caridade. Por isso, a misericórdia para com os pobres e enfermos e as chamadas obras de caridade e de mútuo auxílio para socorrer as múltiplas necessidades humanas são pela Igreja honradas de modo especial.

                Estas actividades e obras tornaram-se muito mais urgentes e universais no nosso tempo, em que os meios de comunicação são mais rápidos, em que quase se venceu a distância entre os homens e os habitantes de toda a terra se tornaram membros em certo modo duma só família. A actividade caritativa, hoje, pode e deve atingir as necessidades de todos os homens. Onde quer que se encontrem homens a quem faltam sustento, vestuário, casa, remédios, trabalho, instrução, meios necessários para levar uma vida verdadeiramente humana, afligidos pelas desgraças ou pela doença, sofrendo o exílio ou a prisão, aí os deve ir buscar e encontrar a caridade cristã, consolar com muita solicitude e ajudar com os auxílios prestados…

                …Para que este exercício da caridade seja e apareça acima de toda a suspeita, considere-se no próximo a imagem de Deus, para o qual foi criado, veja-se nele a Cristo, a quem realmente se oferece tudo o que ao indigente se dá; atenda-se com grande delicadeza à liberdade e dignidade da pessoa que recebe o auxílio; não se deixe manchar a pureza de intenção com qualquer busca do próprio interesse ou desejo de domínios; satisfaçam-se antes de mais as exigências da justiça, nem se ofereça como dom da caridade aquilo que já é devido a título de justiça; suprimam-se as causas dos males, e não apenas os seus efeitos; e de tal modo se preste a ajuda que os que a recebem se libertem a pouco e pouco da dependência alheia e se bastem a si mesmos.

Tenham, por isso, os leigos em grande apreço e ajudem quanto possam as obras caritativas e as iniciativas de assistência social, quer privadas quer públicas, e também internacionais, que levam auxílio eficaz aos indivíduos e aos povos necessitados, cooperando neste ponto com todos os homens de boa vontade.”

                (Vat.II, Apostolado dos Leigos, nº8)

 

                “A doutrina social da Igreja hoje, mais do que no passado, tem o dever de se abrir para uma perspectiva internacional na linha do Concílio Vaticano II, das Encíclicas mais recentes e, em particular, daquela que estamos a comemorar. Não será supérfluo, portanto, reexaminar e aprofundar sob esta luz, os temas e as orientações característicos, que foram repetidamente ventilados pelo Magistério nestes últimos anos.

                Desejo aqui recordar um deles: a opção ou amor preferencial pelos pobres. Trata-se de uma opção, ou de uma forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja. Ela concerne a vida de cada cristão, enquanto deve ser imitação da vida de Cristo; mas aplica-se igualmente às nossas responsabilidades sociais e, por isso, ao nosso viver e às decisões que temos de tomar, coerentemente, acerca da propriedade e do uso dos bens.

                Mais ainda: hoje, dada a dimensão mundial que a questão social assumiu, este amor preferencial, com as decisões que ele nos inspira, não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-tecto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor: não se pode deixar de ter em conta a existência destas realidades. Ignorá-las significaria tornar-nos como o «rico epulão», que fingia não conhecer o pobre Lázaro, que jazia ao seu portão.

                A nossa vida quotidiana deve ser marcada por estas realidades, como também as nossas decisões em campo político e económico. Os responsáveis das nações e dos próprios Organismos internacionais, igualmente, enquanto lhes incumbe a obrigação de terem sempre presente, como prioritária nos seus planos, a verdadeira dimensão humana, não devem esquecer-se de dar precedência ao fenómeno crescente da pobreza. Os pobres, infelizmente, em vez de diminuírem, multiplicam-se, não só nos países menos desenvolvidos, mas, o que parece não menos escandaloso, também nos que estão mais desenvolvidos.

                É necessário recordar mais uma vez o princípio típico da doutrina social cristã: os bens deste mundo são originariamente destinados a todos. O direito à propriedade privada é válido e necessário, mas não anula o valor de tal princípio. Sobre a propriedade, de facto, grava «uma hipoteca social», quer dizer, nela é reconhecida, como qualidade intrínseca, uma função social, fundada e justificada precisamente pelo princípio da destinação universal dos bens. Nem se há-de descurar, neste empenhamento pelos pobres, aquela forma especial de pobreza que é a privação dos direitos fundamentais da pessoa, em particular, do direito à liberdade religiosa e, ainda, do direito à iniciativa económica.

                (A Solicitude Social da Igreja, João Paulo II, nº42)

 

                “Com o passar dos anos e a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais, juntamente com a administração dos Sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados de qualquer género pertence tanto à sua essência como o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho. A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra. Para o demonstrar, bastam alguns exemplos. O mártir Justino, no contexto da celebração dominical dos cristãos, descreve também a sua actividade caritativa relacionada com a Eucaristia enquanto tal. As pessoas abastadas fazem a sua oferta na medida das suas possibilidades, cada uma o que quer; o Bispo serve-se disso para sustentar os órfãos, as viúvas e aqueles que por doença ou outros motivos passam necessidade, e também os presos e os forasteiros. O grande escritor cristão Tertuliano conta como a solicitude dos cristãos pelos necessitados de qualquer género suscitava a admiração dos pagãos. E, quando Inácio de Antioquia designa a Igreja de Roma como aquela que «preside à caridade (ágape)», pode-se supor que ele quisesse, com tal definição, exprimir de qualquer modo também a sua actividade caritativa concreta.”

                (Deus é amor, Bento XVI, nº22)

 

                “Só a caridade pode transformar completamente o homem. Uma semelhante transformação não significa anulação da dimensão terrena numa espiritualidade desencarnada. Quem crê poder conformar-se com a virtude sobrenatural do amor sem levar em conta o seu correspondente fundamento natural, que inclui os deveres da justiça, engana-se a si mesmo: «A caridade representa o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega: «Quem procura preservar a vida, há-de perdê-la; quem a perder, há-de conservá-la» (Lc 17, 33)». Tão-pouco pode a caridade esgotar-se unicamente na dimensão terrena das relações humanas e das relações sociais, porque toda a sua eficácia deriva da referência a Deus: «Ao terminar esta vida, vou aparecer diante de Vós de mãos vazias, pois não Vos peço, Senhor, que conteis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm defeitos aos vossos olhos. Por isso quero revestir-me da vossa própria Justiça e receber do vosso Amor a posse eterna de Vós mesmo», dizia Santa Teresa do Menino Jesus.

                (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº583)

                “O testemunho evangélico da caridade, elemento essencial da vivência cristã, não pode ser reduzido à iniciativa individual. A comunidade cristã é o principal sujeito e agente da diaconia eclesial, sem, contudo, excluir a participação de grupos, movimentos, instituições «especializadas» e pessoas singulares que actuem inseridas nos projectos da comunidade e partilhem do espírito que a animam, para assegurar a coordenação de sinergias e esforços. O agente pastoral não age isoladamente, é mandatado pela comunidade.

                As instituições sócio-caritativas da Igreja são múltiplas em número e diversas na natureza. Umas são de natureza fundacional e outras de natureza associativa. Umas e outras podem ser criadas quer por iniciativa da autoridade competente quer por iniciativa dos fiéis. Quanto ao nível de intervenção, podem considerar-se de âmbito local (paroquial), diocesano, nacional e internacional. Porém, salvaguardadas as particularidades de cada uma, nenhuma delas se pode considerar uma estrutura à margem da comunidade eclesial nem da Hierarquia.

                Graças ao voluntariado cristão, são múltiplas as formas como se exerce nas comunidades a dimensão sócio-caritativa. Ela é uma forma louvável de apostolado, nascido da solicitude maternal da Igreja pelos mais pobres, e praticado, em muitos casos, nos Centros Sociais Paroquiais, nas Santas Casas da Misericórdia, nas Associações de Beneficência e de Assistência, nas Fundações, nas Caritas, nas Confrarias e Irmandades e em tantas outras instituições congéneres que, através de diferentes valências, se propõem levar a cabo a promoção integral dos utentes, cooperando com os serviços públicos e com outras instituições, em espírito de solidariedade humana e cristã.

                A pastoral social tem como horizonte as bem-aventuranças e como meta final os «novos céus e na nova terra». O caminho das bem-aventuranças concretiza-se, no agir de cada dia, pela prática das Obras de Misericórdia, em resposta ao anúncio evangélico da salvação e à denúncia profética do mal, privilegiando a promoção humana e social dos mais carenciados, como forma de combater as verdadeiras causas da pobreza.

                (Princípios e Orientações da Acção Social e Caritativa da Igreja, da Conferência Episcopal Portuguesa, nº5 a 8)

 
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