Padroeira Imprimir e-mail

Image SANTA EULÁLIA,

PADROEIRA DE AGUADA DE CIMA

 

                Augusta Emérita (hoje, Mérida) foi capital da Antiga Lusitânia, fundada no ano 25 a.C. pelo Imperador Romano Octávio Augusto, para acolher os soldados jubilados das Legiões V e X.

                Inicia-se assim um período de grande sumptuosidade, do qual atestam os seus magníficos edifícios: o teatro, o anfiteatro, o circo, os templos, as pontes e os aquedutos.

                Durante séculos e até à caída do Império Romano, Mérida foi um importantíssimo centro jurídico, económico, militar e cultural.

                Pois bem; esta distinta cidade romano – hispânica, que deve ter sido das primeiras da Península Ibérica que viu brilhar a Luz do Evangelho, viria a imortalizar o seu nome nos princípios do século IV, ao ser a pátria terrena de uma das mártires mais famosas do cristianismo: Eulália.

                Já tinha completado doze anos quando sofreu corajosamente o seu martírio.

                Mas já antes tinha manifestado qual era a sua vocação: aspirar ao céu e guardar a sua virgindade.

                Com efeito, contra o que é normal acontecer, desprezou desde muito cedo as bonecas e outros jogos com que costumam divertir-se as meninas de pouca idade; condenava as jóias e adornos femininos; era austera de semblante, modesta no andar e os seus costumes infantis reflectiam a ponderação dos idosos.

                Porém, quando a cruel perseguição atribulou os servos de Deus, obrigando os cristãos a oferecer incenso e a sacrificar vítimas aos deuses, inflamou-se o espírito de Eulália e, assim, com o seu carácter destemido e aspirando no seu coração pela glória de Deus, dispôs-se a desafiar as armas dos homens.

                Por isso, os pais, que conheciam muito bem o carácter de Eulália, procuraram retirá-la da cidade, resguardando-a numa casa de campo.

                Contudo, uma noite, quando não conseguia adormecer por causa das insónias, angustiada pelo refúgio obrigado pelos pais, sem que ninguém a visse, protegida pela escuridão, silenciosamente abriu a porta da casa. Ultrapassou os portões do muro e fugiu por sombrios caminhos, em direcção à cidade.

                Com passo ágil percorreu naquela obscura noite os vários quilómetros que a separavam da cidade, acompanhada, naqueles caminhos cheios de dificuldades e de silvas, por uma luminosa comitiva angélica, tal como o Povo de Deus guiado no deserto por uma coluna de fogo.

                Chegou à cidade de madrugada, antes do raiar do sol, e, destemida, apresentou-se perante o Tribunal. Diante dos magistrados, bradou: «dizei-me: que fúria é essa que os move a perder as almas, a adorar os ídolos e negar o Deus criador de todas as coisas? Se buscais cristãos, aqui me tendes a mim: sou inimiga dos vossos deuses e estou disposta a pisá-los; com a boca e o coração confesso o Deus Verdadeiro. Isís, Apolo, Vénus e até mesmo Maximiliano nada são: aqueles porque são obra das mãos dos homens, este porque adora coisas feitas com as mãos dos próprios homens. Não te detenhas, pois, carrasco; queima, corta, divide estes meus membros; é fácil quebrar um vaso frágil, porém a minha alma não morrerá, por mais atroz que seja a dor.»

                Muito irado, o Governador, ao ouvir tais instâncias, ordenou furioso: «Pretor, prende esta ousada e cobre-a de suplícios para que assim saiba que há deuses pátrios e que não se deve denegrir a autoridade de quem manda».

                Imediatamente, o Governador, caindo em si, disse a Eulália: «antes que morras, corajosa rapariga, quero convencer-te da tua loucura, no que me for possível. Vê quantos prazeres podes desfrutar, quantas honras podes receber de um matrimónio digno. A tua casa, desfeita em lágrimas, implora-te: os teus nobres pais estão chorando de dor, pois vais morrer tão nova, em vésperas de noivado e de casamento. Ou não te importam as pompas douradas de um leito, nem o venerável amor dos teus pais, a quem com a tua persistente teimosia vais tirar a vida? Vê: já estão a preparar os instrumentos para o martírio: ou te cortarão a cabeça com a espada, ou despedaçar-te-ão as feras, ou te queimará o fogo; e os teus pais chorar-te-ão com grandes lamentos, enquanto te sacodes entre as tuas próprias cinzas. O que te custa evitar tudo isto? Nem que toques apenas com a ponta dos teus dedos um pouco de sal e um pouco de incenso, ficarás perdoada.»

                Eulália nada respondeu. Revoltada, cuspiu no rosto do governador, atirou ao chão os ídolos que estavam à sua frente e, com um pontapé, fez tombar o pastelão que estava sobre os incensários.

                Imediatamente, dois verdugos agarraram em Eulália e começaram a rasgar os seus tenros seios e com ganchos de ferro rasgaram as suas castas costas até chegar aos ossos, enquanto Eulália tranquilamente contava as suas feridas.

                Ao contemplar aquela carnificina, Eulália orava ao Senhor, sem lágrimas, nem soluços: «é aqui que escrevem o Teu Nome no meu corpo. Quão agradável é poder ler estas inscrições, que assinalam, oh Cristo, as tuas vitórias. O sangue, cor de púrpura, extraído do meu corpo, fala do Teu Santo Nome.»

                Tão abstraída estava a mártir em oração, que a dor atroz que aqueles tormentos deviam causar passavam totalmente despercebidos, apesar de que os seus membros impregnados com o seu delicado sangue, banhavam continuamente a sua pele com novos cachões de sangue.

                Diante daquela coragem, os verdugos dispuseram-se a aplicar o último tormento: não se contentaram em destroçar-lhe animalescamente o corpo; aplicaram-lhe por todo o corpo, no estômago e nos flancos, archotes incendiados.

                Assim que os cabelos perfumados, deslizando ondulantes pelo pescoço e soltos sobre os ombros para envolver a inocente castidade e graça virginal da mártir, tocaram as labaredas, as chamas crepitantes voaram sobre o seu rosto alimentando-se da abundante cabeleira e envolveram-na por completo num mar de chamas.

                A virgem, desejosa de morrer, inclinou-se sobre as labaredas e aspirou-as com a sua boca.

                Oh, maravilha! Foi então que da sua boca saiu, ilesa, uma pomba mais branca que a neve, que esvoaçando no ar, tomou o caminho das estrelas: era a alma de Eulália, branca e doce como o leite, ágil e pura.

                Assim que o viram, os verdugos e o governador ficaram aterrorizados e testemunharam o seu arrependimento.

                A virgem torceu delicadamente o pescoço à saída da alma; a fogueira apagou-se imediatamente e, por fim, permaneceram em paz os restos mortais da mártir. Tudo isto aconteceu no dia 10 de Dezembro.

                Em seguida, o céu tratou velar aquele terno corpo da virgem mártir e rendeu-lhe as devidas honras fúnebres, porque de imediato caiu um nevão que lhe cobriu o corpo virginal, ocultando, assim, a nudez em que morrera.

                Sigilosamente, os cristãos de Mérida apressaram-se a resgatar as preciosas relíquias daquela corajosa menina, que, com a sua morte, acabava de dar tão grande testemunho de fé.

                Embalsamaram delicadamente o seu corpo e deram-lhe sepultura precisamente naquele mesmo local do seu martírio. Foi aí que mais tarde foi construída uma esplêndida basílica.

                Muito do que nos chegou da vida de Santa Eulália deve-se a Prudêncio, poeta latino cristão que viveu no século IV. Tudo indica que muitos dados históricos se misturam com uma grande imaginação.

                O que é certo que a nossa padroeira, era uma adolescente quando sofreu o seu martírio. Foi de tal modo impressionante que a devoção a Santa Eulália se tornou um dos mais antigos cultos peninsulares, bastante ligado a lugares de defesa castreja e depois militar. Daí, ela chegar até Aguada de Cima.

                A morte de um jovem ou duma jovem impressiona sempre, qualquer que seja a circunstância; muito mais se é por uma causa.

                Santa Eulália deu testemunho da sua fé com a morte – isso é certo.

                Que ela nos proteja, mas ajude cada vez mais a darmos razões da nossa fé.