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Os filhos dos padres Imprimir e-mail

Fernando Calado Rodrigues

Os casos de padres com filhos, como o que foi revelado há dias no Funchal, são sempre pretexto para pôr em causa o celibato e pedir à Igreja que "deixe casar os padres".

Esta é uma má forma de pôr a questão. O que a Igreja deve reflectir é se deve ou não voltar a ordenar homens casados, uma práxis comum em quase toda a Igreja durante o primeiro milénio do Cristianismo e que se manteve até hoje na Igreja Católica Oriental.

Nos primeiros séculos do cristianismo, embora se valorizasse a opção pelo celibato, ela não era impeditiva da ordenação.

A comunidade gerava os seus líderes e escolhia os que poderiam presidir à eucaristia e perdoar os pecados.

Um pouco como acontece hoje em algumas ordens monásticas, nas quais, de entre os seus membros, se escolhem os que possam assumir esse serviço aos irmãos, nunca entendido como uma promoção ou - o que é pior ainda - como o exercício de um poder vedado a outros, ou uma carreira.

Nesta perspectiva, porventura mais coerente e próxima do cristianismo dos tempos apostólicos, a vocação ao sacerdócio deixaria de ser uma opção tão pessoal e individual, como acontece hoje em dia, para envolver muito mais a comunidade, porque mais orientada para servi-la.

Continuaria a valorizar-se os que optassem por uma vida celibatária, mas essa condição não seria exigida para aceder ao ministério. Seriam, isso sim, exigidas outras qualidades, como a liderança, o espírito de serviço, a maturidade humana, afectiva e espiritual.

Isso não evitaria os escândalos e as polémicas, mas talvez diminuísse a sua intensidade. Estes, no seio da Igreja Católica, como em qualquer outra instituição, afectam sempre a sua credibilidade e a sua imagem.

É normal que atraiam a atenção das pessoas e dos meios de comunicação. Não adianta tentar abafá-los ou atacar o mensageiro. Nem esperar que as questões se resolvam por si.

Estes casos nunca são benéficos, mas podem ser uma oportunidade para aprofundar a reflexão e implementar medidas para os prevenir e evitar no futuro, tanto quanto isso é possível.

Na verdade, por mais que se faça, como a Igreja é constituída por homens e mulheres que falham - ou, se preferirmos a linguagem religiosa, que pecam - eles nunca serão totalmente erradicados.

Fonte: JN

 
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