As festas e a fé

Quando saí de casa, no Domingo, para celebrar as missas, a manhã estava cinzenta. As nuvens pousavam, frias, sobre nós. As estradas estavam geadas.

A aldeia onde ia celebrar a primeira missa ficava a várias dezenas de quilómetros. Pouca estrada se via o suficiente para ser desbravada com ligeireza.

Cheguei atrasado uns oito minutos da hora prevista para a missa. Todos me esperavam dentro da Igreja, apesar desta também estar habitada pelo frio. Era, no entanto, menos fria que a rua.

Porém, enquanto atravessava a aldeia, a meio do caminho, veio ao encalço do meu carro uma senhora que me obrigou a parar com gestos de “espere aí mais um pouco”.
 
Enquanto abria o vidro do meu lado do carro, fui-lhe recordando que já estava atrasado e não havia tempo a perder. Ela insistiu para dizer que precisava que eu marcasse uma festinha a santo tal no dia tal, que era a cerca de quinze dias desse Domingo.
 
Era só uma missinha e uma procissão. Com a vida organizada para os próximos meses, expliquei que as coisas não se podiam tratar deste modo.
 
Nem as festas religiosas se devem marcar só porque alguém, do nada, por mais bem intencionada que esteja, se lembre de tal.

Não consegui perceber propriamente o motivo de tal desejo e pedido. Mas o que mais me incomodou foi o que ocorreu depois que subi de novo o vidro do carro.

A senhora que estivera uns quinze minutos ou mais à minha espera na rua fria, o que é de louvar pela coragem, e que desejava honrar o santo com uma missa e uma procissão, regressava então para os seus aposentos, para a sua casa que era logo ali ao lado. A missa daquele dia que a celebrasse eu e os outros que me esperavam.

E nós, padres, temos de continuar a acolher esta gente na esperança de que um dia percebam a verdadeira fé e a ter fé de verdade.

Fonte: Confessionário dum Padre