Padre Paulo Gandarinho conta-nos as suas vivências de padre
Relato na primeira pessoa 

  Nasci e vivi a minha infância no Bebedouro, podendo dizer que a minha vida foi sendo traçada em torno da Igreja Matriz. Frequentei a Escola Primária da Cambeia. Depois da 4ª classe, recordo-me que o meu pai me perguntou o que queria ser na vida; o que queria ser quando fosse grande? A resposta acabou por ser quase imediata: quero ser padre. Olhando para trás não encontro motivos especiais que me levassem a ter esta atitude.

  O que é certo é que a minha vida não deixou de ser cultivada à volta da Igreja: os meus pais conheceram-se na Acção Católica, na altura JOC, continuando depois na LOC, após o casamento. Recordo-me que a minha mãe me confidenciava a algum tempo atrás que o meu pai, quando namoravam, dada a proximidade da Igreja, assim que ouvia os sinos da Igreja a tocar, deixava-a “plantada” à janela, para ir de bicicleta para a Igreja; dada a ligação eclesial, naturalmente os padres que foram passando pela Gafanha, foram deixando “rasto” na casa de meus pais, porque eles sempre foram procurando a proximidade e a convivência com os sacerdotes. Recordo-me de ouvir falar do Padre Arménio, do Padre Manuel Armando, do padre Arlindo, do Padre Tomás, que me baptizou, que ainda estão ao serviço da nossa Diocese, do Monsenhor Aníbal Ramos, que presidiu ao casamento dos meus pais; naturalmente aqueles que tenho mais presentes são o Padre Domingos, que era o pároco, na altura, bem como o Padre Miguel de Lencastre, que era coadjutor, na altura em que fui fazer a admissão ao Seminário de Calvão, ainda com 10 anos, entrando nesse Seminário, com 11 anos de idade; lembro-me também que “fugia” à minha mãe para ir ver as obras da Igreja, que na altura estava em reconstrução, dado que o meu pai também lá andava a trabalhar; lembro-me de ser o “pequeno sacristão”, dado que o meu pai também fez esse serviço à comunidade paroquial e quando ele não podia era eu que estava presente; também nessa altura muitos rapazes das Gafanhas frequentavam o Seminário; naturalmente tudo isto não deixou de ajudar àquela resposta: quero ser padre.

 

Nos Seminários

  Foi com 11 anos de idade que no ano de 1971 entrei no Seminário de Calvão; de seguida andei no Seminário de Aveiro. Quando deixei Aveiro fui viver uma experiência diferente: o Seminário Maior de Aveiro funcionava no Porto; tínhamos as aulas no Seminário Maior do Porto e estávamos alojados no Seminário da Boa Nova, em Valadares, onde o padre Pinho Ferreira era nosso prefeito e o Padre Carvalhais, na altura Pároco de Águeda era o nosso Director espiritual. Entretanto, dado o número reduzido de seminaristas teólogos, transitámos para o Seminário Maior de Coimbra, onde terminei o Curso de Teologia, em 1986.

  O período mais complicado não deixou de ser o Porto; um “regime aberto” em Seminário foi muito exigente em termos de opção vocacional: todos os dias era um corre-corre entre a Comunidade de Seminário de Aveiro e as aulas no Porto. Graças a Deus que nessa altura estava pela Gafanha o Padre António Maria Borges, que me ouviu muito e que me ajudou a clarificar tantas dúvidas e incertezas no caminhar para o sacerdócio.

  Não posso deixar de referir três sacerdotes, que também já faleceram, e que marcaram o período dos Seminários Menores: o Padre Valdemar, Reitor no Seminário de Calvão, o Padre Arménio, reitor no Seminário de Aveiro e sobretudo o Padre Fonte, prefeito no Seminário de Aveiro, que ajudou muito a crescer enquanto homem e cristão.

  Os dois últimos anos de Seminário maior passei-os a trabalhar aos fins-de-semana, com o padre Rei, na Moita de Anadia, com quem aprendi muito, sobretudo na disponibilidade, atenção e serviço ao Povo de Deus.


Trabalhos pastorais

  Em 1986, já como Diácono trabalhei com o Padre António Graça da Cruz, em Vilarinho do Bairro, Amoreira da Gândara e Ancas. Nesse período também acumulei com as aulas de Religião e Moral, no Colégio de Bustos.

 Em 1989, fui nomeado para trabalhar com o padre Franclim e o Padre João Paulo Sarabando, na Paróquia de Águeda e Castanheira do Vouga. Neste período em que permaneci naquelas paróquias e o primeiro ano que estive em Aguada de Cima, estive ligado à vida militar como Capelão do exército, nos Quartéis de Aveiro (BIA) e de Águeda (ISM).

  Neste momento, sou então pároco de Aguada de Cima, Belazaima do Chão e Agadão. Ao mesmo tempo colaboro com o Movimento dos Cursilhos de Cristandade na nossa Diocese.

  A maior dificuldade que encontro é a distância. O conjunto das 3 paróquias aproxima-se dos 90 km quadrados. Tenho de percorrer cerca de 60 km aos Domingos, só para celebrar Eucaristia Dominical nas Igrejas Matrizes, sem contar com as festas religiosas no tempo de Verão.

  Quando fui nomeado para trabalhar com o Padre Cruz pelas três paróquias do Arciprestado de Anadia, ele ao referir-se à experiência de ter sido pároco de Belazaima do Chão, Agadão e Borralha (não sonhava que iria trabalhar nessas paróquias), dizia ele com alguma piada: “um pai quando tem dois filhos utiliza os braços para os pegar ao colo; quando são três, um deles vai com o pé”.

  A grande diferença que sinto nas paróquias serranas é a desertificação e o envelhecimento das pessoas e onde a Igreja surge como espaço de encontro, de partilha e de convívio entre as pessoas e as famílias; naturalmente, fruto das grandes distâncias, tudo se concentra mais ao fim-de-semana, enquanto que em Aguada de Cima e na zona marítima se pode distribuir pelo decorrer da semana.


“Experiências marcantes”

  Eu tive a graça de logo no início do meu sacerdócio passar por algumas experiências que vão estar presentes por toda a minha vida:

 A primeira tem a ver com a “Missa Nova” na Gafanha da Nazaré; por circunstâncias familiares, conversando com os meus pais e com o falecido Padre Rubens, na altura pároco da Gafanha, optámos por criar um espaço de convívio em torno da Missa Nova; o salão paroquial, por debaixo da Igreja Matriz, no final da Eucaristia foi aberto a toda a comunidade para almoço-convívio; foi a concretização da “multiplicação dos pães”, pois foram centenas de pessoas que foram passando nessa tarde e início de noite e não faltou nem a comida nem a bebida… muitos idosos ainda se lembram desse dia;

 A segunda tem a ver com a participação nos Exercícios Espirituais promovidos pelo Movimento para um Mundo Melhor, passados três meses da ordenação sacerdotal e a convite do Padre Georgino Rocha. Crescer em Igreja comunitariamente entre padres, leigos, religiosas, casais e jovens… Deixar que o Espírito de Deus rasgue perspectivas de ser e estar no Mundo de Hoje…

 A participação num Cursilho de Cristandade, ainda não tinha dois anos de sacerdócio, a convite do casal Moreira Seabra de Sangalhos.

 Tudo isto não deixou de deixar “marcas” no meu “ser” padre nos dias de hoje.

 Hoje mais do que nunca estou convencido que o padre é um discípulo no meio de tantos e tantos discípulos de Jesus Cristo, embora com uma Missão e função diferente. Isto leva-me interiormente a caminhar em Povo e com o Povo de Deus. Por isso, tenho que estar mais disponível para escutar, para ouvir as pessoas e para juntos encontrarmos caminhos novos para a construção do Reino de Deus aqui e agora, onde a Igreja precisa que eu esteja. Às vezes custa, pois sabemos qual a meta, qual o rumo a tomar, mas as pessoas só dão um passo de cada vez, não mudam porque eu acho que devem mudar, mas a esperança e a força do Espírito de Deus são sempre um desafio a ir mais longe mais adiante.

 Se o padre é “fixe” porque…

…pertence a um presbitério e procura estar em presbitério, mais do que na sua “paroquiazinha”,

…procura caminhar e crescer como Povo de Deus,

…procura na oração e na Eucaristia o encontro com Cristo vivo e ressuscitado,

…procura caminhar na Graça de Deus e ajudar as pessoas a encontrarem-se com o Pai Misericordioso e Compassivo,

…procura escutar e estar atento às pessoas e às suas circunstâncias,

…procura estar ao serviço da Comunidade Cristã

…então eu quero ser um padre “fixe”.

 Nasci num dia em que Nossa Senhora era celebrada em Fátima; fui ordenado diácono no mês do Rosário e fui ordenado sacerdote no mês da Mãe.

 Nossa Senhora está e estará sempre presente na minha vida de sacerdote.

 Que Nossa Senhora de Nazaré não deixe nunca de estar presente na vida de todos os sacerdotes.


In “Timoneiro”