Maria de Nazaré mais Discípula do que Mãe

Se Nossa Senhora fosse menos olhada como Mãe de Jesus e mais como a discípula ou a apostola de Jesus, dar-se-ia uma revolução na Igreja Católica e quiçá no mundo cristão.

Explico-me. Maria de Nazaré foi sempre considerada ao longo dos século como a Mãe Imaculada, a mulher submissa à virgindade e endeusada no papel de Mãe, coisa que os textos bíblicos facilmente desmentem e falam-nos de uma mulher interventora, discípula, que antes de ser Mãe, ouve a Palavra de Deus e a coloca em prática.

Eis o papel do discípulo/a, aquele ou aquela que se coloca aos pés de Jesus para escutar a Sua Palavra.

Maria, trata-se de uma mulher activa, que vai ao encontro dos outros e resiste de pé firme ao pé da cruz. Antes de ser a Mãe, é a discípula que escuta, mas avança na entrega total à causa de Jesus.

Se esta visão sobre Maria de Nazaré fosse mais rezada, celebrada pelo mundo cristão, as mulheres teriam o seu verdadeiro lugar nas igrejas e estariam em plena igualdade face aos homens.

Não haveria acepção de pessoas. Os sacramentos seriam para todos, especialmente, o Sacramento da Ordem que continua vedado às mulheres. Ora, uma reviravolta enorme no pensamento e na mentalidade dos cristãos.

O que se diz ou prega sobre Maria de Nazaré reveste-se de uma desumanidade impressionante. A iconografia mariana é disso um exemplo. As imagens que se contemplam de Maria de Nazaré, revelam uma mulher assexuada, nada próxima da condição do ser mulher.

Um rosto sempre tristonho, cabisbaixo e de mãos sempre voltadas para o céu como se o inferno estivesse aí junto aos pés. Esta visão do ser mulher em nada tem que ver com a condição feminina e não espelha a dignidade que esta condição expressa de riqueza e diversidade.

A feminilidade ainda continua a ser um perigo para as igrejas profundamente masculinizadas que a tradição máscula arquitectou baseada na imbecilidade de se dizer que é a vontade de Deus.

A divinização de tais argumentos é um sacrilégio e uma ofensa ao Deus da universalidade bem patente no Evangelho da Cananeia e no diálogo extraordinário de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob.

Maria de Nazaré, antes de ser Mãe, é a Serva de Deus, que participa do plano libertador que Deus quer levar adiante a favor da humanidade inteira.

É Ela que se levanta como profeta ou discípula ou apostola para dizer «NÃO» a tudo o que se opõe a esse plano libertador de Deus. O Seu «SIM» não é uma manifestação submissa, mas compromisso activo, militante nessa obra de Deus.

Ela é a Maria do povo, um povo concreto, a mulher do nosso chão, a companheira que faz caminho connosco nas veredas deste mundo e que em cada esquina nos toca com o Seu abraço de amor.

O Evangelho prova-nos que esta mulher é a Maria pobre, que vem do meio do povo, da aldeia, da cidade… Ora integrada no sangue que escorre nas encruzilhadas dos caminhos ora desprezada por ser mulher e por manifestar a diferença, exactamente, como acontece ainda hoje a qualquer mulher que assuma activamente a sua condição feminina e que se preze porque quer ser diferente do status machista que a sociedade convencionou.

No canto de Maria «O Magnificat», acolhemos Maria como a mulher pobre vergada ao carinho dos pobres desta vida, que procuram Deus e gritam por justiça.

É desta mulher que se aprende o que é a fé, a escuta, a reflexão e a capacidade de decidir, mesmo que muitas vezes a compreensão das coisas não seja assim tão clara e tão óbvia como Ela desejaria.

Assim, mais valia para uma humanidade mais justa, fraterna e amiga dentro das igrejas cristãs se Maria de Nazaré fosse olhada como a discípula ou a apostola e não tanto como a Mãe, que Jesus desvaloriza frequentemente em muitos momentos do Evangelho. E mais, Maria não se valeu da sua condição de Mãe para contrariar o Filho e fez-se discípula.

Fonte: O Banquete da Palavra